×

Quem são os pacientes neurológicos crônicos na era pós-pandemia?

Por Dra. Valéria Modestto Barbosa

Em dezembro de 2020, a Covid atravessou a porta da minha casa. Minha mãe adoeceu no dia 8. Três dias depois, adoeci também. Tive 75% dos pulmões comprometidos. Precisava de oxigênio para dar poucos passos. Pentear os cabelos exigia uma força que eu já não tinha.

Desde março, eu vivia sob o medo. Algo em meu íntimo pressentia uma tragédia. Naquele dezembro, perdi minha mãe. Ao luto somou-se a tarefa de recuperar um corpo que parecia ter esquecido como seguir.

O pulmão melhorou, mas meu pensamento continuava longe. Começava uma frase e perdia o caminho. A memória recente falhava. Organizar ideias e decisões tornou-se difícil. Cheguei a temer uma demência. Era como procurar meus pensamentos em uma casa sem luz.

Meu mapeamento cerebral registrou atividade lenta frontal, entre 5 e 7 hertz. Na minha avaliação clínico-eletrofisiológica, esse padrão se relacionava às dificuldades de organização e tomada de decisões que eu vivenciava. O sofrimento tinha uma expressão na atividade elétrica do meu cérebro.

Essa experiência me levou a construir palestras em congressos: quem são os novos pacientes neurológicos crônicos?

São pessoas que sobreviveram à infecção e continuam com fadiga, alterações do sono, esquecimentos e dificuldade de concentração. Muitas chegam ao consultório temendo uma demência, como eu temi. A névoa mental compromete trabalho, estudos e autonomia, inclusive após quadros inicialmente leves.

A pesquisa neurofisiológica tem documentado, em grupos pós-Covid, lentificação frontal, alterações de coerência entre regiões e mudanças no ritmo alfa. A análise quantitativa do EEG e métodos como o LORETA e suas variantes permitem investigar a distribuição das fontes de atividade elétrica cerebral. Esses fenótipos eletroencefalográficos ajudam a compreender alterações funcionais associadas às queixas cognitivas.

Há trajetórias ainda mais graves. Acompanho pacientes jovens que sofreram parada cardiorrespiratória e convulsões, durante a doença COVID. Neles, a falta de oxigênio deixou lesões cerebrais que exigem reabilitação prolongada.

Minha recuperação foi gradual. Recebi cuidados clínicos, trabalhei a força muscular e cuidei da microcirculação. Posteriormente, durante o acompanhamento com a tecnologia REAC, percebi maior clareza mental e retomei minhas atividades. Essa vivência ampliou meu compromisso com a reabilitação e com o acompanhamento da evolução clínica e eletrofisiológica dos pacientes.

Também enfrentamos as marcas do estresse, do isolamento e do luto. A casa tornou-se escola e escritório. Crianças e adultos atravessaram perdas e cobranças contínuas. Essas histórias precisam encontrar espaço na escuta clínica.

A reabilitação pede acompanhamento individualizado, tempo e metas possíveis. Aprendi isso como médica e como paciente. Quando alguém diz que ainda não voltou a ser quem era, precisamos escutar. Há vidas esperando condições para reencontrar o próprio ritmo.