Estudo da Equifax BoaVista, Acordo Certo e CDL Porto Alegre mostra que comprometimento de renda das famílias segue acima do início da década, mesmo com o quinto corte seguido de juros — e que a folga esperada tende a ser gradual, não imediata
O Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu, na quarta-feira (16/09/26), cortar a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, de 14% para 13,75% ao ano, o quinto corte consecutivo, em decisão unânime. Para os mais de 122,8 milhões de brasileiros com crédito ativo, número que cresceu 27% entre 2021 e 2025, segundo o estudo “O começo de uma década”, da Equifax BoaVista, Acordo Certo e CDL Porto Alegre, a notícia costuma ser lida como alívio automático no orçamento. Mas os dados do próprio estudo sugerem que essa leitura merece cautela.
O levantamento mostra que o comprometimento de renda das famílias com contratos de crédito saltou de 70,3% em 2021 para um pico de 86,1% em 2024, recuando para 81,1% em 2025, ainda 10,8 pontos percentuais acima do início da década. Para os pesquisadores, essa recente melhora não deve ser confundida com uma reversão estrutural do endividamento.
“A queda observada no comprometimento de renda em 2025, na comparação com 2024, não deve necessariamente ser encarada como uma melhora estrutural, pois é possível que seja resultado de um processo de ajuste das famílias ao cenário de custo elevado do crédito”, afirma Oscar André Frank Junior, economista-chefe da Câmara de Dirigentes Lojistas de Porto Alegre (CDL POA).
O ciclo de juros altos elevou de forma duradoura o custo do crédito para famílias e empresas. Entre 2021 e 2025, o saldo inadimplente do país mais que triplicou, passando de R$54 bilhões para R$177,6 bilhões, enquanto a taxa de inadimplência sobre a carteira ativa praticamente dobrou, de 1,98% para 3,97%. A taxa de indivíduos inadimplentes avançou de 19,9% para 26,3% no período.
Vale lembrar que o Brasil possui a quarta maior taxa de juros no mundo, prejudicando empresas e pessoas físicas, favorecendo somente o sistema financeiro, que domina os interesses e ações do Comitê de Política Monetária (Copom), órgão do Banco Central do Brasil responsável por definir a taxa básica de juros da economia, a taxa Selic
“A queda da Selic para 13,75% é uma boa notícia, mas ela não desfaz cinco anos de ajuste no orçamento das famílias. O crédito ficou mais caro por tempo suficiente para virar hábito de vida, e isso não se desfaz em um corte de juros. O que vemos na prática é que a queda de juros melhora a régua de novos contratos, mas quem já está endividado continua precisando renegociar o que ficou para trás”, explica Fernando Iódice, CEO da Consumidor Positivo, grupo no qual a Acordo Certo faz parte.
O que muda com juros mais baixos
A queda da Selic tende a reduzir gradualmente o custo de novas operações de crédito, especialmente em linhas atreladas a juros pós-fixados, como financiamentos e alguns empréstimos consignados. O efeito sobre dívidas já contratadas no auge dos juros altos, como parte do rotativo do cartão de crédito e do cheque especial, historicamente as modalidades mais caras do mercado, costuma ser mais lento, já que essas taxas não acompanham diretamente o ciclo de cortes na mesma velocidade. O próprio comunicado do Copom reforçou essa cautela – o comitê sinalizou que a continuidade do ciclo de cortes será calibrada à luz de novos dados, e a próxima reunião só ocorre em novembro.
Segundo o estudo, os grupos mais vulneráveis à inadimplência seguem sendo os consumidores mais jovens, prejudicados pelo menor tempo de experiência no mercado de trabalho e por rendimentos mais baixos e quem recebe até dois salários mínimos, mais suscetível a choques de renda. Para esses perfis, a folga trazida por juros menores tende a demorar mais para aparecer no orçamento.
Se o efeito da queda da Selic sobre dívidas já contratadas é lento, a renegociação é a alavanca que não depende do ciclo de juros, pode ser acionada pelo consumidor imediatamente.
“Não dá para esperar a Selic resolver uma dívida que já está no nome da pessoa. Mesmo com o corte de ontem, o efeito nos contratos antigos ainda vai demorar a aparecer e renegociar é a única alavanca que o consumidor já tem em mãos hoje. É justamente aí que a gente atua: transformando um cenário macro difícil em uma decisão concreta que a pessoa pode tomar agora”, complementa Iódice.
Para quem está negativado ou com contas em atraso, a recomendação da Acordo Certo é mapear todas as dívidas ativas antes de negociar, priorizar as de juros mais altos (como rotativo do cartão e cheque especial), buscar as condições de desconto diretamente com credores ou plataformas de negociação, e evitar contrair novo crédito para pagar dívida antiga sem antes reorganizar o orçamento.
Metodologia
O estudo “O começo de uma década – A evolução do mercado financeiro até a metade dos novos anos 20” foi desenvolvido pela Equifax BoaVista, Acordo Certo e CDL Porto Alegre, com base em dados do Sistema de Informações de Créditos (SCR) do Banco Central do Brasil referentes a janeiro de 2021 a dezembro de 2025, complementados por pesquisa de percepção com 2.533 usuários da plataforma Acordo Certo, realizada entre 26 de maio e 11 de junho de 2026.