Acidentes com motos internaram 1,25 milhão de brasileiros em uma década e geraram custo bilionário ao SUS
27 de julho – Dia Nacional dos Motociclistas, conforme a Lei 15.006/2024. A ocasião tem o propósito de aumentar a conscientização sobre os riscos enfrentados por motociclistas e reduzir o número de acidentes no trânsito. E as estatísticas reforçam essa necessidade.
Enquanto a frota de motocicletas bate recordes de vendas no Brasil, impulsionada pelo trabalho por aplicativos, os hospitais contabilizam a fatura em vidas e em reais. Uma análise conduzida pelo Grupo IAG Saúde, que reúne dados assistenciais da Plataforma DRG Brasil e registros nacionais do DataSUS, mostra que os acidentes envolvendo motociclistas se consolidaram como uma das grandes causas de internação por trauma no país — e que o problema não para de crescer.
Entre 2015 e 2025, o Sistema Único de Saúde registrou 1.247.801 internações de motociclistas acidentados, com 22.984 óbitos hospitalares. O dado mais preocupante está na curva de crescimento: as internações saltaram de 89.315 em 2015 para 153.301 em 2025, um aumento de cerca de 72% em uma década. Não é um problema que esteja sendo controlado; é um problema que se agrava ano a ano.
Na Plataforma DRG Brasil, que detalha o perfil assistencial de 72.791 internações entre 2021 e 2025, 81,7% dos pacientes são homens, com idade média de 33,9 anos. É a população em plena idade produtiva, a mesma faixa etária que hoje concentra os trabalhadores de entrega por aplicativo, atividade que se tornou porta de entrada quase imediata no mercado de trabalho e um dos principais motores da expansão da frota.
Um em cada dez vai para a UTI
Diferentemente de outras causas de internação, o acidente de moto raramente é leve. Os dados da Plataforma DRG Brasil mostram que 10,8% dos pacientes precisaram de terapia intensiva e 10,9% de ventilação mecânica — praticamente um em cada dez em cada um desses recursos de alta complexidade. A permanência média foi de 6,9 dias e o peso relativo médio, indicador de complexidade assistencial, ficou em 1,4978, bem acima do observado em internações clínicas de rotina.
As lesões são predominantemente ortopédicas. Cirurgias de membros e tratamento de fraturas responderam por 59,4% das internações, com destaque para cirurgias de membro inferior e úmero (21,1%) e para fraturas, entorses e deslocamentos (13,3%). São traumas que frequentemente exigem cirurgia, internação prolongada e longos períodos de reabilitação, com impacto que se estende muito além da alta hospitalar, sobre a capacidade de trabalho e a renda de quem depende da moto para viver.
A mortalidade hospitalar, embora inferior a 2%, esconde um volume absoluto expressivo: as quase 23 mil mortes hospitalares registradas no SUS na década equivalem a uma média superior a cinco óbitos por dia — e essa contagem considera apenas quem morreu internado, sem incluir as mortes no local do acidente.
Custo bilionário
O SUS remunerou essas internações em R$ 2,42 bilhões entre 2015 e 2025, com valor médio de R$ 1.940,47 por internação.
Prevenção
Diferentemente de muitas doenças, o trauma de trânsito é, em grande medida, prevenível. Especialistas em medicina de trânsito estimam que quem anda de moto tem risco de morte muito superior ao de ocupantes de carros, e em boa parte dos municípios brasileiros os acidentes de trânsito já matam mais do que armas de fogo. Os dados hospitalares dão a esse debate uma dimensão concreta: cada ponto na curva ascendente de internações é um jovem em uma UTI, uma cirurgia ortopédica, semanas de reabilitação e, com frequência, a perda da própria fonte de renda.
O desafio, mostram os números, é agir sobre as causas, com formação e condições de trabalho dos entregadores, fiscalização, infraestrutura viária e uso de equipamentos de proteção, antes que a curva continue subindo. Enquanto isso não acontece, é o sistema de saúde que recebe a conta, medida em leitos, em bilhões e, sobretudo, em vidas jovens interrompidas.
Fonte : Predicado Comunicação


